terça-feira, 13 de setembro de 2011

Atividades encerradas (13/09/2011).

sábado, 19 de setembro de 2009

Foi um terrível cataclisma,
a paixão,
endoidecida.
Insanidade, mordente,
ensandecida.

Foi tranqüila, soledade,
os mirtos cresciam,
belas cidades,
campanhas cobertas de trigo.
A saudade,
não existia:
soledade era o nome
do amor desconhecido.

Tristes trópicos, várias
florestas esquisitas,
o fim do mundo é já,
o parapeito às escondidas.
Largo enverdecer de um dia.

Clarinas florestas,
e o cheiro à mortecida.

Que é o amor, que é a paixão?
Rosas cristalinas
Desejos impuros? Não.
Enganos sim, havia.
E há enganos,
que eu não sabia.

O cheiro forte da maresia,
o clarim coberto, a noite fria,
chãos descobertos, e fria
a estocagem de grãos
ao deserto.

Fulo de ervas,
o chão.
Flor do deserto,
reaviva o chão.

Gotas esparsas,
depois
aluvião.

Mágica de dedos,
mãos.
A tocar piano, as divinas teclas, o coração.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

NUMBER

A boneca de minha filha,
surpreendentemente - é minha neta!

Eu, um dos homens laranjados,
fazendo a estrada, co´s companheiros...
largo canteiro, sem flores
- além dos uniformes: violetas,
glicínias, girassóis.

Casinha verde, entre velhas seringueiras,
"shed" de vender alguma coisa
óculos brancos, o vento no pasto -
canadian summer - é o nosso inverno.

gafanhotos descansam,
fim da tarde,
longo fim, longuíssimo fim,
e jovens seringueiras, o perfume
de flores, quase artificial, flores
fortes, invisíveis, intoxicantes de bondade.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Diaspis Echinocacti.. ou Drunk Blues

nunca mais ia pensar

então me veio uma noite
uma noite lenta
então bebi meus goles
escutei uns Blues
que falam dos amores cruéis e dolorosos
aqueles que ninguém esquece
e eu queria um a mais
um funeral bêbado em metais, sopros e miséria
...coisa dos goles...
uma mistura de Sertão e New Orleans...
cavaco e cavaquinho?
assim... como a corda desparalelada,

neW...

não se esqueça de mim
não perca meu cheiro onde a lua brilha em seus olhos
oh baby (?)
sorry... você nunca foi meu bebê..
all right... você foi entusiasmo
e eu te digo baby
one more time!

OI!...
é um puxo dizer isso
baby!
um raio de Baby
nas costas
pesadas
nos passos
o calcanhar.. e a flecha
no calcanhar
porque o fogo acabaria muito rápido
no lugar mais certo
oh... todo mundo tem!
e eu não vou ser esse um...
e eu não vou ser esse um...
e eu não vou ser esse um...
que todo mundo acha que vai ser só um!

Você já ouviu um blues?
onde Bum BUm BUM bum
você sabe bem do bum... how .hoW.. hOW...HOW
e você não vê o tal
minha (pá)ZZZ não vira cal
eu não mato o bicho
vem no bolso
eu sei
feito padre corisco
ou stratocaster
neeeeeew...neeeeEW
New
nada de novo
só eu aqui
de-
-novo!

sexta-feira, 6 de junho de 2008

INTOXICADO COM A ROSA

Foi assim, de repente,
nariz na flor, seus muitos dentes.
Que surpresa! O perfume que exalou
matou exército.
A frescor de suas pálpebras
espantou misério.
As suas mãos, de multidão,
Coçaram alento.
Sem repetição, o perfume da rosa
intoxicou meus dias.

domingo, 4 de maio de 2008

Be(l)atriz

ólho...
e quando ólho preencho este lado
fluxo-nado
meado em ti, Lua.
eclipse.

forquilha
da raiz o cerne
o varão que se abre
fecha-se poente
e uiva

aglutina
corrompe a mancha
meu afeto feto alvo
côa-gula
torna certa cor

saliva.

salivo...
suspiro-roxo
em seu eixo, farol
volta
auscultando...

domingo, 27 de abril de 2008

"O homem, que é imortal, mortaliza-se por meios de suas conquistas"

´´´

Areias no deserto

Eu nunca havia visto algo assim:
chuva, como areias no deserto.
Areias de barulho,
em golfadas,
como neve.
Nos telhados.
De ampulheta, envolvendo os sonos.
Umidificando a redoma,
dos sonhos.
Eu nunca havia visto algo assim, ouvido
fachos de água, como lanternas
afogantes, tão Jivago.
Agir vago,
no infinito através de mim.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

A SOMBRA DOS PASSOS

era um fato infantil
passar por fios de arame
correr pelos pastos
sentir os comichões da grama
filtrar o suor pelo corpo
seguir o rio, ir com ele
passar mais tempo com pássaros
do que com pessoas, viajar
em suas asas, nas minhas
palmas abertas e braços
sentir as horas por sombras
pela luz de tardes cor-de-rosa
e nuvens modeladas em espírito
corrente sob e sobre as pontes
que de passagens eram salto
faziam-me rio
de maneira que cada vez menos
me encontrava a lhe transpor
transpunha-me por dentro
nas relvas, nas folhas, na grama
no titilar das aves, no desejo de ir
ao vôo fuçador das camadas coloridas
que me eram tão quanto eu
natureza surpresa, calcita
sacro santa brisa entardecida
pés em terra
terra, unha, água, sangue, rosa
vermelho chão esverdeado
coração azul e céu íris
de tudo quanto me era vida
vendo noite vindo ainda clara
clara vinha lua
num horizonte de estrelas quase tácteis
pudera eu ser ali
por onde avistava a linha do céu
onde quem sabe
tocavam lua e estrelas
como os acordes da água
que me corria pelo dia
pelos olhos, mãos, ouvidos, pensamentos
e me permeava nos instantes eternos
de uma juventude prematura
onde eu alcançara a unidade de todas as coisas.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Em fonte grande

Em fonte grande,
estas palavras,
de muambeiro
de coisas do Espírito.
Tenho de tudo, de pentes,
a tesouras, e facas de corte,
e muitas flores.
Uma vida foi gasta,
Tentando limar as pontas
Do vestido
De uma dama,
Que dama!,
Do lago generoso,
Da tua estrada.
Tua, combinando com lua.
Por que tu, lua, ascende
Em situação calamitosa,
As brumas, lassas, bem rentes
Da figura matutina da aurora?
Em fonte grande, as gralhas do arvoredo
Não pegam pardais. Apenas essa música
De arrependimento. Esse furor
Contra o risco medonho.
Esse murmúrio gigante, esse deslizar insano
Do trenó, em via baixa. Apenas o calar do sino
Em luarada. Apenas isso, apenas ficar
Sensivelmente à beira do telhado,
E cair na grandeza. Cair na grandeza...
Cair
Na grandeza...



Que a grandeza caia sobre nós,
Desabe,
Venha tudo.!
Venha abaixo.!


Quantos Atlas devem ter desistido
De segurar o Céu.?
Quantos devem ter se retirado,
Deixando tudo cair, despedaçado,
Espalhando-se em mar, em terra,
Foram embora, foram nadar, espreguiçar,
Visitar a esposa e os filhos, vadiar,
Como diz a polícia – mas a polícia
Não é páreo para o Atlas. Ele é como
O Lázaro redivivo, na última tentação
De Cristo, o filme.



Música estranha, das esferas,
Das estrelas, do amor arrebatado
E bafejado de ar divino.
Cheio de lances, cheio de espinhos.
Diabólico amor, cesto divino,
Entre as mãos, as quatro mãos,
As duas mãos.
Música das esferas, das estrelas,
E o que parecem duas feras...
Brigando por leite, que acabe
Todo o sorvedouro que é um e outro.



Aliás, a bruma, que encobria toda a cidade,
Desapareceu. Deu lugar à claridade,
Que entontece. Sobreviverei?
Ou serei aniquilado, como vampiro?
Que haja vampiro, então seja aniquilado.!
Que sobrará?.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

A BOREAL AURORA DO BIRÔ PESSOAL

Ah eu digo...
pra mim
mesmo
nessas mesmas madrugadas de rosas
como você sempre diz:
“Ai, carai!”
a tal coisa a se descobrir
o tao
o tal
parece até que sabemos
aparece
nesse meio
fim
começo de descoberta
que até estava aqui
percebo aí
em nós
por favor, eu já disse:
“quero um livro sangrento!”
caraio
de escolha
que paira
e quando aparece
parece que já inscrita
há anos
e se achega
coisa de que vê
pessoas chegarem tão impressiona-mente
num meio diverso
de tal's que não se viam
e se vêem
no mais
no caminho
que nem sabem qual.
caraio!

quinta-feira, 3 de abril de 2008

PARA ENTRETENIMENTO NAS MADRUGADAS

E veio-me a lembrança do amigo, a dizer:
"Sim, as escolhas. Que diabo, que são as escolhas!"
Sim, que diabo que são as escolhas, meu amigo.
Há um caminho, por que seguimos outros?
Dos caminhos todos, um é mais atraente;
mas vamos pelo que, de todos, é o que não queremos,
só para provar coragem, ou só para contrariar a Natureza.
De que nos vale, contrariar a Natureza? Que ganhamos?
Só perdemos. Adiamos.
Há só uma Via.
Plantas não escolhem, bichos não escolhem,
só ao Homem foi dado esse mal.
Resta saber se as escolhas já não estão premeditadas,
e toda essa baboseira metafísica..

A CURIOSA PROCURA DESUMANA DOS HOMENS

descobriram um silêncio que se espalha
um segredo nevoado pelo ar
que os homens, alguns juram separado
do anseio que costuma iluminar
falam certos de um vazio que é comum
que em todos bem por dentro é levado
feito um rasgo que transborda sem juízo
e comprime pelo peito o pecado
alguns poucos loucos velhos já diziam
que o olhar quase sempre surpreende
por um véu que se abre e olho estende
vendo o alto mesmo estando aqui em baixo
mas o velho já vivido assim lembrava
que de passos vive o homem a se abrir
e o caminho surge só é o que acho
disse o velho num sorriso a imprimir
então certos da loucura ali de lado
deram costas aos caminhos que contava
então feito um menino ali sentado
no sorrir que era o mesmo do luar
feito o tempo era certo ao que importava
pois procura quem não vê o seu lugar.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

MEDITAÇÃO SOBRE A ROSA

Não sobre a rosa, sobre a roseira:
(coisas de jardineiro), olhe: têm os galhos, a roseira.
Cada galho é um galho, pensa o homem. Coitado desse galho!
E esse outro, ... está bonito. Vamos podar esse galho. Nossa!
Coitado do galho... Mas a roseira é um todo.
A roseira deve sentir a poda do galho, o galho, não.
Da mesma forma, o homem morre, e quem sente são os vivos.
Portanto, cada galho não tem importância em si, mas
somente o conjunto, a roseira. O todo.
Os céus são desumanos, sim. Hellás! Todas as nossas palavras são vãas.
Como as flores. As flores são vãs. E, no entanto, as dizemos.
Pois o mundo, como vivo, tem memória. E lembra-se, de tudo.
O estalo do chicote, em 1823, ainda repercutiu num sentido pouco avistável
do organismo universal. Não foi bom, talvez, mas foi, certamente, forte.
Do mesmo modo, a dôr da poda pode surtir efeito depressivo ou revigorante.
Assim, a diferença entre o bem e o mal é coisa difícil de avaliar.
Depende da perícia interior do podador.
E as flores que dissemos, mais ou menos cuidadas. ..
Universal jardim, quem somos nós para julgar. ..

LIVROS ALUCINÓGENOS

um sopro cartesiano
e a expiração sai na ponta dos dedos
um olhar por outro olho
num paralelismo universal
o todo, o tudo
grãos e gravetos
árvores e aves
e a sentença singular do homem
o toque alegórico
a fanfarra de folhas
vento circular
o ciclo pra fora
pra dentro inspiração
de dentro a onda contra a terra
o homem regressa
o regresso desfaz o homem
a torre é botão
e a rosa tem cheiro de chuva
de céu e sonho acordado
o homem não é homem
é fração
a fração é tudo
e tudo é caminho
é caminho a luz
as ondas
o indivisível
onde não há nada
e não está vazio
onde não há nada
o encontro
onde não há
existe
o caminho vazio que enche o homem
o caminho ao homem vazio
o homem esvaziando seu caminho
o vazio
o homem
o caminho
ao seu fim desumano
e eterno.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Como dizer..?

Noite que ficou para trás:
noite puríssima.
Noite de estrelas entre as árvores
de estrelas ao redor da abóboda
de estrelas por todo canto.
Que direi desse profundo sentimento?
Mais que o vento farfalhava,
por detrás da música.
Viagem com Hércules, com Cristo.
Tua presença iluminou meus dias.
Mestre, onde estiveres, eu estou.
Não importa onde. Em toda parte.

(quantos espinhos não viraram flores,
ao pisares os daninhos? Que para ti eram flores,
só mudados doutro vinho. Vinho da dureza,
que era para ti, a dureza, senão a pedra que molhavas?)

terça-feira, 25 de março de 2008

STEPPEN BLUES

em noites vazias
visão em névoa e luar
um lobo em pele de homem
pela caça por um bar

num trago de qualquer coisa
o homem lobo entorpeceu
a louca porta dos raros
não mais viu, no mais perdeu

...

o homem pra ser lobo mostra os dentes
e torce o nariz...
o lobo pra ser homem faz de conta
que não caça pra ser feliz...

(CONTINUA...)

sexta-feira, 21 de março de 2008

MELÔ DA VACA MORTA

Esse é o melô,
Melô da vaca morta,
Se o ce saí por aquela porta,
Meu coração, vai morrer de doooor!
Eu nunca fui um santinho,
Mas peguei meu burrinho
E fui trabalhaaar!

Sabe, eu acho que vancê
Não podia entender
Que o samba nasceeu anssim:
Na batida do jingado
Eu peguei o boi-chachado,
E fui pro lugar-comum.

Lugar-comum, lugar-comum,
Comunidade zero-hooora.
Veio o bispo e o patrão,
Pra pedir a permissão
Presse povo se assentar.

Melô da vaca morta.
Morta de se assustar.
Coitadinha, ta fedendo,
Morreu num algum lugar.

Lugar-comum, lugar-comum
(taruncaruntuntatata)
Nós tavamos dançando,
Lá nos encontramos.
Lá eu soube da flor.

Continuaria,
Mas já está de dia.
O sol partiu agora,
Da Índia já está pra chegar.

(tarungarundundá)

quarta-feira, 19 de março de 2008

CONSCIÊCIA

um sonho de garoto
quando corria atrás de uma bola
dela
ou pela lua
uma ruazinha acordada até tarde
(um terreno de brincadeiras insônicas)
onde cadeiras na calçada
se estendiam aos pais
que olhavam
ou se faziam as crianças mais altas da rua
os amigos das brigas
as brigas que nos formaram mais iguais
os amigos pra tudo
as meninas de fora
e logo tão dentro no primeiro amor
barraquinhas de pipoca no portão
vendedores sem lucro
onde o filme se passa hoje
na memória
das vasilhas vazias em piruás consentidos
o quarteirão era o mundo
com uma antiga casa de fantasmas
e um pomar
de crianças alucinadas
o antigo muro de buracos pequenos
que não precisava de portão
a rua de encontros
dos que vinham da escola
com pães e manteiga
escondidos na mochila
mastigando o caminho
um teatro de caixotes e lençóis
bombinhas de junho
as mais coloridas até hoje
perto da mangueira o rio
perto do rio todos nós
e de nós fiapos nos dentes
que saltavam em risos do outro
de si
ou só por rir
coisas inexplicáveis hoje
e que fazíamos tão bem
tanto quanto fazer do minúsculo quintal
uma selva de rosas, pinheiro e hortelã
sentar numa caixa de frutas
e dirigir num volante de tampa de panela
por um caminho que tinha tantas curvas
subidas e descidas
árvores, montanhas, obstáculos
tão pequenos
pra um acelerador de ripa fincada no chão de terra
para o dia do balão
que subiu inúmeras vezes imagináveis
mas que foi grande de mais
à todos os tubos de cola que encontramos
os menores homens e mulheres
as maiores crianças
os amigos mais velhos
as mais novas lembranças
de um sonho de garoto
um fragmento do sonho
um fragmento de tantos garotos
a pequena marca de um
feito em tantos outros.

segunda-feira, 17 de março de 2008

MUNDO DESMORONANDO

Nem parecia
- nem parecia?..
O mundo, desmoronando.

Nuvens moviam colunas,
colunas de templo imenso,
colunas imensas,
esboroando.

Chuva veio com um cheiro,
cheiro de quê?
Cheiro bom, de tranqüilidade.

Ainda sonho com você, irmã/o da minha alma.

E o deserto me ameaça:
é bom.

segunda-feira, 10 de março de 2008

FRATERNAL

tão logo novo reino surge
e com ele a esperança de dias não tão quentes,
o rei e a filha se enlaçam
num derradeiro abraço de paz,
um concílio
e o sorriso estendia aos olhos...

....seus corações
agora cheios da nova vida
se faziam em enorme erupção
e dela o perdão
um caso nobre
tão raro entre os “nobres”
de uma filha ao pai
de mãos dadas e estendidas
um pedido às irmãs...

e trouxeram o amor jamais visto antes
naquele Reino tão mais novo.

quinta-feira, 6 de março de 2008

ERVAS ARRANCADAS

Espalharam-se no chão,
as urtigas, coloridas, rosas,
verde-claro, fresco. Bonito monte,
onde homem não anda, onde pés não pés
vão, ou as formigas, que maravilhoso mundo!
Como outra dimensão, caída.
E o chão, sob a montanha fresca, colorida,
Ganha sonhos de musgo. “Sim, musgo!”, alegra-se um duende;
E, subitamente, nasce uma esperança, no deserto.
Que nomes! Não sei, de plantas, só lembranças.
“Musgo!”, de tranqüilidade.
O sol escaldante do deserto, manta de abrasador, não faz mal
a quem ali se protegeu.
A quem ali se protegeu, não faz mal, a berrante vicissitude de calor,
o sol, É brando, é calmo, é fresco.
Ervas arrancadas, espalhadas, fesceninas espirais, tenras dores,
folhas de espalmo,
conchas,
lesmas.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

o fim da noite é côncavo
com pó expresso
e um grupo professor fundamental
não é fim
é um trisquinho de continuação
se quiser convite
é aviador
é festa
bolo
aniversário
um sair
só pra sair daqui
e acabar
onde começa
com cigarro
café canela chantili
e vira cerveja
o dia à noite
da xícara ao copo
e vice e versa no tardar.

"The Misty lights of February"

Fumaça depois da chuva,
assim é, à noite, à luz dos faróis,
vagarosos. Fumaças por onde eu saí
ao fato
de que o João Nunes tocava bandolim.
Sim! eu me lembro, coisa de infância mágica,
o João Nunes tocava bandolim, e isso para mim era uma alegria.
Mística tarde.

*

Namorado do mundo,
eis-me de todos, nenhum. Aqui estou,
(de lá, me vejo). Sono pegando,
dormirei com ninguém, todos pelo sonho.

*

Disciplina de monge.
Vou pelas estradas.
Monges amavam.
Monges curtiam.
Monges fanavam.
Dormiam.
Tinham muitos sonhos, pel´amor de Deus, muito sonhos...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

ERA UMA VEZ NO CETRO-OESTE

Eis que me encontro sob asas coloridas
e sinto o vento bater em meu olhar
como um derradeiro beijo sobre vida
lavai os pés desta árvore de rosas
franzindo o que desce do luar
o toque rompendo o vácuo
e o veneno contra a peste venenosa
ergo-me sem promessa num esteio
pra que possa em ti perder
não do amor, mas da antiga agonia
e que quase todo dia
via em mim o seu sofrer
solto meus braços
que se amarram em seus abraços
caminhando nos seus passos
a estrada sem desvio
me lança o manto nu
sei do perigo
de ser mais que seu amigo
ser o ser mais atrevido
a quem possa se doar
então me deixo
e retiro minhas botas
já cansadas de doer
assim me deito
não há sonho com defeito
quando sonha pela amada
que da dor se vinga sorrindo.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

"Coisa"

Coisa é o nome da vida
de Armando Suassuna,
grande vereador de Pau-d´Alho-D´Oeste,
única cidade brasileira com duas apóstrofes,
se não me engano.
Armando é sujeito bom, honesto, trabalhador,
inexpressivo com facas,
mas bom atirador, vingativo, sereno,
elemento morto da sociedade pernambucana,
ex-exilado de Santo André,
onde não conseguiu emprego.
Vive às custas do emprego de sua lábia vantajosa,
e de seu pequeno animal cortante, o gato,
pulando nas meias das coquettes do Sertão.
Não o grande sertão, mas o sertão.
O grande sertão se esconde na cabeça de cada um.
Viajando nas estrelas, a lua
pede um pouco de atenção. Pede???
Acho que não.
Brilha sobre as coisas, mas brilha porque brilha,
e não pelas coisas. É uma piedade que lhe damos.,
Feliz quem dá às coisas sentimentos humanos.
Ó chuva piedosa!, ó milagre de vento!, ó luz inspiradora!
Somente o seu Armando fica de papo pro ar,
respirando as ventas de seu cavalo novinho.
Falando com ele: "Pangaré, por que é que eu te tenho?"
- isso é o que ouvimos, e ele não. ..

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

SOB/SOBRE O QUE SOBROU DE NÓS

torcicolo nas estrelas
nuvens longínquas
um raio sem choque
...talvez fantasie...
talvez
o pouco de tudo
dessa ventania que as espaça
por ciência demais
mesmo sem anel
pairadas em frios coágulos de névoa
voam
em seus pés o passado
onde se precipitam
perdem num sonho liquefeito um pouco de si
em suas alturas
ajuizando o inatingível universo
onde só as poeiras cavalgam
onde seus sonhos ilustram campear
tem elas o sol
dão elas a sombra
tem as estrelas, a lua e marcianos
oferecem absolvição do uivo
cantam suas trovoadas
ao universo e sua fênix
à estepe verde
que amadurece com pingos
gotas de narrativa escorada
nos olhos que se escondem...
dizem os antigos sobre as tempestades
dizem as nuvens de suas partes
de seu artifício em produzir e granjear
seu descabelado feitio invólucro nebuloso
que neva
refresca
inunda
irriga
diz
tudo sobre o tempo
o seguinte instante improvável
e ecos do passado.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

"Ilha"

Muitos dias se passaram, desde que deixamos as Canárias. O sol, detrás de nós, parece um copo ardente donde tenhamos sido despejados. À frente, é como a boca que nos traga, dramaticamente, até dormir, ao fundo da noite, para alívio nosso, por acaso estados nesse mar.
Gigante, a natureza nos esmaga. Não perecemos, apenas sofremos; de sofrer, passamos: é a hora do alívio, e esquecemos. Pacientes, curiosos, arrostamos o Oceano. Forrado de alimentos, o porão do navio, a certa hora, começou a falar. Parecia que, do trigo, tivessem nascido diabinhos e espíritos. De feijões, pequenos brotos de malvadeza e pés. Inevitável perguntar o que essa carga de grãos fazia na despensa, junto à carne salgada e às bolachas. Não sei. Era eu um pobre marinheiro, pobre de idade e de atenção. Apenas sei que, uma tarde, no convés, percebi quê eram os barulhos: passou-me ao sol, ficou único ao sol batendo na madeira, tudo ficou só a coisa gorda, macilenta, desajeitada e grande: o rato.
Mil horrores se passaram.
Vinha o Capitão, reclamando sua paz aos céus, que nada diziam, que o Céu jamais dá resposta imediata, salvo ocasiões especiais, conhecem-nas eles, só. Agora, nesta canícula ardente, em que não pese o artifício da composição sinonímica, houve não resposta. Só dos bichos, o Inferno é que falava.
Dos relatos de quem visitou o porão, não direi nada. De suores noturnos, não direi nada; nem da insônia. Muito menos do constante estado de alerta em certos cantos do navio, onde eu deveria estar.
Cantos de marinheiros! Que menos Inferno é, para alguns, o excruciante terror de uns. Não percebiam? Não ressonava, naqueles muitos peitos, o guincho que abalava as estruturas do meu, como em casa vazia.
Dia de sol, perna estirada, e a de Ramón: suas duas pernas, formando uma. Alívio, de narrativas muito outras, terras que não vi, as que contava. Existiu, por eterno minuto, minutos de um bloco de tempo indivisível, nada mais senão a paz da amizade. Brancuras de espuma, verde de mar, fitas de vestido, passando pelos olhos, sem se imprimir, sem se fixar. Ilha de amizade; habitantes: duas testas.
Um pé sobre o outro: desabou-se, o edifício. Grito único e súbito, coisa marrom fugiu, mundo gelado e um emblema vermelho no pé direito, de Ramón.
Pânico.
Ramón ria e praguejava, altamente, com o susto. Passei mal. Levaram-me desacordado, branco e terrificado. Puseram-me no leito, mumificado. Até que, certo dia, vieram me buscar, que era hora de trabalhar, levaram-me a Capitão, que, desconhecendo tudo, inclusive meu nome, tomou o fato de eu estar no “hospital” como estar na cozinha, e mandou-me buscar a comida, no porão. Escuridão. Imaginem só, o que aconteceu. ..

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

azulZIN

parecia a última ceia
última refeição
último prazer,
sua fronte marcada
com marcas do abalo
sísmico abalo pontual.

no entardecer passado
em seu palco de graveto
cantara as canções
canções que seu velho ensinara
e que só os seus
sabiam buscar as notas
nas cores que tardam...

cantou como um feirante
(antes da lei municipal)
cantou como a lavadeira
(limpando suor com suor)
cantou como um bêbado
(que canta subconsciente)

“... canto pá caraio, cê piszava vê só!
- Mai agora ta aí...”

na manhã ulterior
quando as cores também se movem
fez-se frouxo o canta galo,
piriricou até sambas enredo
com essa onda passada,
mas o bicho de cor forte
não tirou a cabeçadasa.

foi um banho borrifado
foi remédio do neném
foi tirar comida
fazer o quê?
assim explode!
foi de tudo até a tarde
foi dormir...
num céu azulão mudo.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

"Curió aprende no ovo"

Assim, mais um ensinamento de meu pai.
"Curió aprende no ovo."
Querendo dizer, com o exemplo,
que todos mundo aprende, quando no ovo.
Curió nunca ouviu o pai cantar,
só quando estava no ovo.
Não adianta botar o cd do Mestre cantando,
ele vai cantar que nem o pai.
Ou, até adianta:
mas o novo vai lutar contra o aprendido
no ovo.
...
O ovo escuta.
Que te direi, meu filho..?
(Que te tenho dito..?)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

HISTORINHASque vovôZINcontava

...!viva o Senhor rato!

algum tempo atrás...
as pessoas de Vilarejonópolis
andavam tristes,... pois
o mandaChuva
o senhoR javali
não cumpriu suas promessas antigas
aquelas...
as que se fazem num ano bom.
Mas tinham medo... de mudar o rumo
das coisas do dia.
.. um
ratinho
entrando pelas fretas
de fininho
veio vindo
desde longe pela estrada nordeste
falando...
que o tal medo
não era nenhuma “...cobrança dos céus...”
era desesperança
e foram acreditando...
hoje...
ele entra na aldeia
e...e... não dava pra acreditar!
todos os queijos....tinham uma forma
que ninguém
até hoje
consegue explicar
mas... que faziam pessoas
sorrir... enquanto o rato caminhava
lentamente... observando Vilarejonópolis,
prometendo prosperidade...

“...!viva o Senhor rato!”

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

"Tarde no Campo"

A igreja estava vazia. A toalha branca cobria a mesa, altar. As rosas artificiais enfeitavam a santa freira, com pena da cruz que as mãos traziam aos olhos. A luz do sol morria pela última vez, nos vitrais, no vitral, amarelo e azul no alto, transparente e ondulado ao meio. Quando a moça entrou, os vasos, embaixo da mesa coberta com pano, se mexeram, fazendo barulhinhos. Depois, uma voz infantil, de criancinha, falou alto, qualquer coisa de incompreensível ou absurdo, conversando alto com suas brincadeiras. A moça morreu, e de susto, saiu correndo rezando credo-em-cruz, e nunca mais se ouviu falar dela. Manuela, depois, saiu de baixo da mesa.
*
Alecrim-dourado. Os fundos da capela. Igrejinha, e areia branca. Sombras de trás da igreja, lugar que santo algum se recusa a estar. Vasos deixados, pululados de frutos, de flores, frutos para os olhos. Meia-volta, uma ferradura, e estávamos um ao encontro do Outro.
*
Piscina para a lembrancimaginação: o terreiro de café. Semi-arruinado pelo tempo e pelo mato. Piscina d´água: um ventre para imergir, em meio a todas as "lembranças" do cafezal de outrora.
*
Paz de estrelas. O balanço, ia e vinha. Paz de estrelas, entre galhos altos. Paz de estrelas, depois do tronco.
*
Bancos para a leitura de livros imaginários.
*
Pomares e gramados. Livros caídos ao gramado. Livros se desfazendo. Livros se liquefazendo. Grama sábia, que não conhece nada.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

POMBO CHINÊS

jogava migalhas

e agarrei-o

não o prendi
prendi a ele
a mensagem do grande dia
a passagem para o colchão de nuvens
o Sonho Latino
ainda sem dinheiro no banco
apenas sentado
com folhas na imagem
verdes folhas
uma chuva de folhas
enquanto sentado
o vento horripila os cílios
e o dia é grande
é bom à face das flores
um eco rarefeito de entropia
um desfile sintetizado em futuras cinzas
da próxima quarta-feira próxima
onde a espera de quem apanhando
cessa
e por alguns dias esquecerão do astro
do lastro
solvente em pecados
da noite vestindo o neo-trapalho
que traz de longe
a inquieta noticia calcinada.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Não ficar, não ir. Não sorrir.

Guarda-chuva azul.
Aberto, é como cabana, caverna, clarísima.
Meio-dentro de meia-caverna azulzíssima,
assim me gozo,
de contar meu coração.
As fantasias criadas pelo desconhecido amado,
desconhecido escuro, desconhecido.
Canta, ó Musa, o que só Tu sabeis.
Assim, singular que é plural.


I

Vinha pela rua noturna, invisible rua.
Vinha pela rua, a Lua.
Vinha rachando veios macios e folhosos de nuvem.
Parecia um olho.
Assim, cantarei histórias.
De que apenas um ínfimo da fímbria.
Desenrola-se todo um casulo, de apenas puxar esse fio,
esse fio, que apenas nós sabeis.
Mesmo: eu que se torna tu.

II

Escondia-se o directo enervamento,
na sola do apaziguamento,
toda a louça balança, a solidão imprime
coisas que se avizinham
de saber.
Têm sua própria lógica, a vivência
longínqua.
Harpa de muitas cordas.


III


Mundo todo, eis só o que almejo.
Quantos confortos, quantos sacrificios, para poder sorrir.
Para aliviar as rugas de expressão, tornar-se lívido.
Leve. Pluma de algodão sobre a FACE do mundo.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

GRAVANÇO

Olha o catador de céu
sua sina triste quando chove
quando chove seu checo coração
olha o catador...
sem vontade do dia
jaz em sonho,
jazz em vértices pesadelos se acordado
mas seu sonho já chegou.
Vela o catador
as cinzas da brasa noite tradaga
o odor de sua busca
cratera cruzada
o santo carnal
o sangue choro transpira
inversamente a dentro
onde seu gosto tem olhos alérgicos
e há pouco remédio à vista.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A voz

A voz vem da profundeza
e reverbera na garganta,
como nas paredes de um vaso de porcelana.
Tudo traz:
pétalas do que os olhos viram,
e frutos do que não se viu cair.

A voz se eleva
e, com ela, a planta.
É como se saltassem flores
- não de sonho: flores como flores,
planta como árvore.

Quando a boca se fecha,
a voz é um rumor
que escuta e aguarda,
e ouve murmúrios próximos,
que soam vindo de muito longe,
como na rua de apenas sol no domingo,
morna com os gritos,
morna com os sussurros à beira-rua.

Precioso é o silêncio desta sala,
a cortina sinuosa, como a noiva
leve e branca, acarinhando, à janela,
o noivo saudoso que abraça a viola.
O cheiro do café e da tarde, ou
da tarde e do café.
A porta aberta,
onde batem palmas ao portão.
Precioso é o silêncio
como um convite a saber.

Senta nesta cadeira.
Direi duas palavras,
dirás três.
Tua mão, no calor da xícara,
desmaiará até o limite do sono
e logo voltará à vigília.
Trarei um bolo em pedaços.
Comerei só um, durante a hora,
porque do milho são suaves as nuances
com a farinha e o açúcar,
e demorado, o prazer de semeá-las.

Falarei do trem,
e um longo silêncio
levará o trem.
Acenderás um cigarro em teu sorriso
e, com a perna cruzada,
queimarás dez minutos.

Então, teremos ouvido muitas crianças,
e o meio da rua, com sua bola colorida
pulando. Teremos conhecido a cantiga,
suas interrupções, risos e comentários.
Teremos adivinhado a história
da brincadeira de corda que não vimos.
E teremos acompanhado longamente
o caminho do sorveteiro,
até inaudível, uma nuvem
na bruma solar.

A voz se eleva, e é clara.
Escuta: nenhum momento é vão.
Ouve: tua voz, como vento nos galhos,
tua voz contra a garganta, como brisa
da tua profundeza, o que és.

Tua voz te eleva.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

AZINHAVRE

minha metade esquerda adormece
acontece toda noite
quando escorre o nariz
iéca!
os olhos tem ardido quase sempre
depois da meia noite
e uma dor forasteira
tende a tenda ranzinza.
dia improvável, noite só...
uma aflição de cuca sem porque

e a cuca vem pegá
cuca caco
caca
coco
cocô

eu sabia que ia dar merda!
mal dia...

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

"Dó"

O lirismo. Haverá de lírico
uma corrida na campina.
Nem bem uma campina, mas,
para uma criancinha de três anos,
o jardim da igreja deve ser interminável
sofredouro de liberdade e de cores.
Formas belas, pedacinhos de paisagem,
fragmentos de deserto, fragmento à Luís XV,
de savana, de Minas Gerais, de Inglaterra.
Cada metro quadrado deve ser um mundo!.
E o entardecer, tornando a vida suportável,
exaurindo o calor que insuportava,
trouxe sapos e grilos, num anfiteatro distante,
RUBENS FABRII AUDICTORIUM!
- de bambus altíssimos, a Concha acústica.

Lirismo foi isso. Ver passear
perninhas grossas. E o épico?.
O épico já passou. O épico se foi.
As trivialidades da vida ocupam meu caminho.;
Jogo fora essas palavras: épico, epopéia, universalidade,
grande, humano, fraternidade. Não..., essas palavras
têm mais força do que eu. Eu sou um desistido.
Pisar os pés no solo,
e ver de perto como a nave pulsa no Céu.
Rompendo o narcótico
da vida.

{retôrno ao começo: sim, agora me lembro
tudo o que eu senti quando nasci.
dó.
mais do que isso:
uma vontade de beleza.}

A vida está acabando, sim, graças a Deus.
A vida não é insuportável, e sim a eternidade.
Se formos eternos, que seja com o perigo da morte,
sempre. Minuto que morreu: eternamente.
Assim estamos sossegados: com todas as coisas
morrendo para sempre. Eu assim me deitarei
na eternidade. Sempre acordado.

NATAL IN VITRO

era o mesmo
na porta
na mesa
entre elas
“...entre...”
por elas passado
temperado o vidro
sem sal o ar da graça
do dia de graça
de graça
uma bronquite
broncas em baratas invasoras
elas vieram à meia noite
eu avisei que Papai Noel se fantasia
e não havia churrasqueira
mas ninguém pensava nele,
era meia noite, poxa vida...
pobres baratas Turcas
santas baratas
se...
não fossem aqueles vidros
dedos duros
(bruxas rotas
com suas vassouradas)
quem sabe
todos ganhassem presentes.
pobre fantasia...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

"Magica ad magiciam semper tornat"

Um piso diferente. Foi isso.
Noutro quadro, foi isso: um piso diferente.
Um beneficiamento da casa.
Atraiu-nos grande pesar.

Coisa que sempre me preocupou foi a inveja.
Não me entra na cabeça
como alguéns podem ser tão alheios de seus próprios bens e felicidades
a ponto de se absorverem, obcecados, com o que os olhos vêem
no próximo. Será o princípio do "Amar o próximo" sem o acréscimo do
"como a ti mesmo"? Ou será uma transfiguração perniciosa, tal como:
"Odiar o próximo como a ti mesmo?"

Sei lá. .. Só sei que se nos botou um mal-estar terrível.

Para os amigos se abrem portas, se estamos.
Para os inimigos, há que haver uma lei de inivisibilidade,
ou um ambiente que de tal maneira lhes seja insuportável. ..

Natal não-triste: esquisito. Estranho. Nuvem de pesadume,
que veio, passou, e deve ter retornado. À casa tenebrosa,
escuros alabastros, escurecidos vasos, noite nas janelas.
Vela alguma, senão dos corações lá morantes; quiçá um dia,
resolvam acendê-la. A escuridão, sempre à disposição
da luz.

(Caso de Natal)

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

NOEL?

meia noite lua...
... e uma maldita porta de vidro.

sábado, 15 de dezembro de 2007

"Logo passa" (ao meu amigo Jacundo)

Sonhei que havia um vídeo,
e nesse vídeo havia nuvens.
Sonhei que era de papel, a suave enegridade,
era sua, a falta completa do anônimo minuto.
Era tua, cadela no cio, ela estava além do portão
onde bêbados corriam (corriam?), sim! corriam.
Você não recolheu a cadelinha, seu bosta,
e os carros passaram pela vidraça do corredor.
Nela eu vi, quem a levou.

Foi um magro cachorro feio e grande, peludo, mas de pêlo desconjuntado.
Meio cor de estopa, depois de usar em oficina. Sabe?
Foi ele quem a levou, e naquela hora
Ele era um Príncipe.

Vai saber que carruagens ela viu. Vai saber que anjos, que estrelas,
que noite arada em luar febril, suada de orvalho. Que carinho, que aconchego,
que calor quentinho. Vai saber?.. Estava na garagem, a espingarda.

Hoje, deram-se cachorrinhos. Nenhum com a cara do Pai.
Que importa! O lazarento ficou zanzando, que nem bêbado!
Tadinho... E tadinha, dela...
E esses cachorrinhos...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

MAGRELINHA

és paisagem
cigana
e sua tenda pede ao tempo
a mim
Espere!
espero
à sua volta em minha volta
longa de hackear o silêncio
o contido
a esfera debruçada cruzando os braços
abraço e o beijo
a dúvida
que não é duvida
é anseio
medo
ou qualquer coisa contida no intervalo
que espera
áspero
gosto de um maço de cigarros
espera
rosto de um maço de desejos
espero
posto de um vigia noturno
em segredo
em lábios de espelho
em segunda chance
silêncio
saliêncio
e penso
logo existo nesta dose típica de vontade
vaidade
ou deficiência mal acompanhada de sempre
sempre sempre sempre sempre sempre sempre
agora me vem o atravesso
espiando pelas frestas do cruzamento
ecruzilhada
de um lado ela
esperada
do outro eu
pelas frestas de mim mesmo
está ela
e pelas dela
estou eu
ai
do eu
ai de mim
com tudo pra fazer
e o descaso desta vida
que demora pelo sim
e me deixa avariado
descuidado
e tonto
que nem barata
que não sabe pra que lado.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Amor/amor

Amor azedou a comida.
Largou as roupas.
Desertificou o ar.
Sufocou.
Impronunciado, era magia.
Mas levantou uma muralha.
Quebrou o encontro dos olhos.
Criou necessidades de estar longe.
O amor acabou com o amor.

As roupas se largaram.
Apartaram-se os caminhos.
O amor azedou a comida.
E jogaram-se os dois, pelo caminho.

Impronunciado, era magia.
Mas veio a palavra,
acabar com o amor.
Amor.

Impronunciado, era tortura.
Fazia-se balão, de muitos cuidados.
Era amor, amor havia.
Tão grande que, ao abrir-se caminho
para o ar, foi-se tudo, de repente.
Tudo foi-se. Acabou.
Veio a palavra, libertar.


- SEISCENTUS MILI CAPIROTU!

pode ser ela chegando
o vento é o mesmo
soa igual
apesar da afável cortesia
sua;
as batatas vão ao chão
interrogadas
pelo descascador de dúvidas
que estridalha :

“- O alto carrega-se
impronunciável
de estrelas e idéias de lousa
focinhando afianças
no mesmo lapidar
incorrigível
da majestosa forma sobre o tempo.
- Embora sedutora
de juras dentro da caça
é a Bruxa.
- Tranquem os portões do exílio!”

e a embarcação de derivas
escolta sozinha
o gosto do momento.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

ULTRA-ROMÂNTICO

Só falta um cigarro, e o banho.
Estou economizando o cigarro do pensamento.
Que, na verdade, é o cigarro do não-pensamento,
do esvaimento do tempo. Penso em que como estou magro,
doente, alquebrado, vicissitúdico, e a tendência é só piorar.
É nessas horas que me dá uma raiva dos monges budistas,
filhas-da-puta, por que vocês são iluminados?
Por que vocês existem, e por que a lembrança de vocês
é inalienável da minha vida? E por que me azucrinam
toda vez que me deparo
com a multidão de pecados.
Quão logo deveria ser
o adensar-se à terra.
Desaparecer do outro lado da Terra.
Um verme furando a crosta,
até o Japão, ou ilha fratricida.
Desaparecer, e sobrar alguém, com melhor aparência,
e mesmo nome, dizendo: "Ah, sim, conheci. Mas,
não sei por onde anda. Destruiu-se."
Quantos quartos, quantas redomas,
quantos vieses, quantos meses.
Hoje, é isso. Sumir.
Belo dia! Belíssimo dia! A luz, e tudo o mais.

À NÃO POESIA CONFINADA

Ela cruzou meu caminho
e a correria não fez mais que um desvio de atenção
que pareceu pouco
mas indagou o sono

podia olvidar aquele conjunto de dentes
afinal
apenas dentes
(imanizados dentes)

os meus
encobertos
taciturnos
no cerrar de lábios
buscam a pronuncia
desta irrupção
como uma Space Invaider
ao cálice sagrado
como Bukowski
ao bar calado
ou minha sala sem este carpete
vermelho.

foi só um sorriso
sabe-se lá pra quem porque do que
mas o quando onde como
não me germe falar de amor
inquieta
toda poesia
que jurava o fraseio
a qualquer passagem.

domingo, 25 de novembro de 2007

TOPKAPI

....{ }....
rosas


...! [ ] !...
Abu


...! º !...
a lua,
nem eu sabia que estava cheia.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

SEM DESODORANTE

a poeira corre meu sangue
curto-circuita
não é só poeira
é luz
é a distância entre eu e você
que não existe
havendo um
ou milhares
destas conexões
essas formas
todas no espaço infinito do átomo
grão
elétrons afeiçoando-se
na relação infinita de criatividade
evolução(?)
criação(?)

abreviação apenas
lúdica-mente espirrada
dispersa pelo ar
composta no infinito espaço
que não permanece
pois não divide
não espera
paira
em células que morrem
e nascem
iguais(?)
afeto(?)
toque do vento que toca
folha que ziguezagueia
olho
cheiro
mão
flor de laranjeira
mecânica metáfora laranjâmica
suco gástrico
pâncreas
que se refaz todo
a cada dia
poesia
a cada milionésimo
de segundo.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

ALMA VIVA

Eu sei de tudo.
Eu vejo tudo.
Eu sinto tudo.
Mas o teu feitiço não é páreo para Deus
e ele há de me valer.

Eu sei de tudo.
Eu vejo tudo.
Eu sinto tudo.
Até a possibilidade de estar com mania de perseguição,
até isso, delírios de conspiração.

Eu não sei nada.
(é a respiração: expiração)
Não vejo tudo.
Não sinto tudo.
Afrouxam-se as previsões, os delírios.
Luxuriante, pesado: novamente gandhi.

Vivo, enfim.
Até a alma, respira.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

PÁTHOS FATOS

Estou rodando
rondando
meus dias de blecaute
sobre ânsia
sob peito esbraseado
entre palavras determinadas
a custar
meu enjôo
minha vertigem
meus centavos
trocados
no punho da madrugada
quando meus inimigos envolvem
sinos de questão
e o palácio dividido
o grande muro
as dívidas
atravessam meus dedos
no verso da marcha
torrente
eu pergunto
coço pensamentos
despenteio meu queixo
considero meus olhos
imagino a invariável crença
insoneio meus ouvidos
pela fanal liberdade
e rascunho um sorriso
que escorre
em linhas expressivas
gotejando
como vela
que queima ou veleja
como filtro
que faxina
enche o copo das tempestades
perdendo o soluço
quando se assusta
e tem que agradecer.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

FALTA UM

Nada, hoje, para escrever.
O vento é frio, e é contrário:
a fumaça entra pela janela, do cigarro,
e polue a caza. Coisas do vício, do nervo, do abalado edifício.
Eu.
Desabalada carreira, assim foi, em, o coração,
à procura.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

ENSEJO

esfolam-me os desejos
desejos irreparáveis
amáveis
e vãos
abocanham na essência
o cheiro dividendo
maciço
que parte pulsado do peito
e se depara no periférico toque desses dedos
fingidos
cicatrizados de tempo
equacionando o tatear impronunciável
lubrificante de meros acasos

infecto em posição feto
do embrião vermelho da tarde
da escuridão lacônica
na ponta encravada
deste nariz
metendo-se a besta de 70 olhos
nenhuma boca
mas de ouvidos e pés incontáveis
como são incontáveis as vozes
e suas pronúncias
suplicas
praguejos
gracejos
perdas e perdões

desejo
sim, desejo!
pois é pouco apenas sonhar
não levar a imaginação aos pés mãos olhos fio de cabelo
insuficiente é
cruzar cada rua calçada pessoa
entrar pela porta desta casa que vivo
e não é minha
não ver que vi,
vislumbrei
cada antônimo Antônio pedra árvore Maria
sinto
cada poeira vento fumaça sorriso cara de fuça
de tal modo que desejo
o desejo a cada passo movimento de olhos
que no imediato instante
o desejo desanda ser outro.

ESCADARIAS VERDES

É uma samambaia (?)
Parece uma samambaia.
Degraus horizontais, suas folhas.
Verdes de novíssimo.
Que pés a colhem?
E a sobem.
Aonde sobem?
Ao recanto, virílhico, às pernas
da jaboticabeira, unidas.
À sua vulva, cheia de cascas
secas e tortas?
Que fará ali o quem?
Será a sua morada de alguém?

Besouros não sobem.
Formigas não galgam.
Bichinhos não pulam
os seus degraus.

Mas esse ninguém que sobe a escadaria samambaiforme,
é lindo.

II

Pérolas de chuva,
inclinaram os passados.
Os degraus caíram,
vencidos.
Ninguém virá subir,
Rapunzel,
Até o teu recanto sem bruxa.
Até que a secura resolva
livrar as folhas
da pesada riqueza
que a chuva lhes deu.
Até que a escadaria reverdeça,
horizontal,
estarás à espera.
(ou será que o príncipe, antecipado,
já ali estava, rubro,
a acender o fogo, da lamparina,
a esperar a chuva, que tem teus pais
fora; a deslizar o cântaro
- essa agüinha, da purificação -
câmara lavada, agüinha
escorrendo ao chão
de orquídeas bem guardadas.

LIQUEFEITO

meus pés gélidos
dentro da noite
surrupiavam
o nhenhenhém indecifrável
que da janela
vinha ao mundo
como essas coisas naturais
que nos pegam em reparos
e descongelam
a imaginação pendente.

primeiro
o assovio serenato
e a pausa
tecendo atenção
às três batidas, que batem mais três vezes
depois e depois...

-Já vai!

- Entre, fique a vontade.

aceito o cálice da noite
dentro
nuvens espremidas
fora
preciosas luzentes de intriga
que-diz-que-diz-que
a mesma poeira passeando pela cidade
ao longe
são estes grãos
espalhados pelo céu

e fico manco
mas dou um belo gole.

O GRITO DE ÓRION

Órion está no céu quando é Verão, e quando é Primavera.
Sua clava, agora, está escondida,
numa longa folha de nuvem.
O céu está puro. O vento purifica.
As folhas das catedrais caem.
Eu disse: "Eu te amo".
E, para a vida toda, não sei.
A vida toda é esse momento eterno,
que durará até agora.

Nuvem fofa, pequena, amarelecida
de Bauru as luzes. Nuvem perto.
Nuvem que se espedaçará
ao toque sutil
da clava que
Órion desferirá
em seu dorso
fragmentando em flocos
de algodão. Outro tecido celeste.
Outra fibra, com que se fazem
travesseiros de Deuses.

Prato feito. Eis a terna
sabedoria de acolchoados grãos.
Flotam, eis o golpe a caminho.

Purunas.

Purunadas, buragantes, breisdopadas, fruume, frú.


Barulhos.


Salsa de qual banquete? Paixões, desejos, ...
Tudo o que eu queria
era o coração pacificado. Para isso, eu devo
pegar as tuas mãos.